Megaoperação: ex-chefe da Polícia Civil eleito deputado foi o 2º mais votado na região dos complexos do Alemão e da Penha
Como agentes ligados à megaoperação transformaram a atuação policial em política Um ano depois da megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Pe...
Como agentes ligados à megaoperação transformaram a atuação policial em política Um ano depois da megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o ex-secretário de Polícia Civil Felipe Curi (PP), um dos responsáveis pelo planejamento e pela execução da ação que deixou 122 mortos, foi o 2º candidato mais votado nas 4 zonas eleitorais que abrangem comunidades da região e bairros do entorno, com 1.763 votos. Curi foi eleito deputado federal com 133.626 votos em todo o estado, terminando como o 14º mais votado no Rio de Janeiro. 📌Um ano da megaoperação: esta reportagem faz parte de uma série do g1 sobre os desdobramentos da ação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, com 122 mortos. Leia todas as reportagens. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Felipe Curi, secretário de Polícia Civil do RJ Reprodução/TV Globo A Megaoperação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025, mobilizou cerca de 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar e se tornou a mais letal da história do RJ. A atuação da cúpula da segurança pública ganhou ampla exposição durante e depois da ação, que passou a integrar o debate político sobre o combate ao crime organizado. Além de Curi, outros 2 policiais ligados à operação também foram eleitos: o ex-secretário de Polícia Militar Marcelo de Menezes Nogueira, o Coronel Menezes (PL), para deputado estadual, e o delegado Bernardo Leal (PP), que ficou gravemente ferido durante a ação policial na região e também conquistou uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Os resultados eleitorais permitem dimensionar a votação desses candidatos nas áreas selecionadas para o levantamento, além de registrar o desempenho deles em bairros próximos dos complexos onde ocorreram os confrontos. Metodologia do levantamento O levantamento feito pelo g1 com base nos dados do TSE reuniu a votação nominal dos candidatos nas zonas eleitorais 21, 161, 162 e 188. A Justiça Eleitoral organiza o eleitorado por zonas e seções, mas uma mesma zona pode abranger locais de votação em diferentes bairros. Por isso, os resultados não correspondem exclusivamente aos moradores dos complexos do Alemão e da Penha. A zona 21 abrange partes de Bonsucesso, Olaria, Penha, Penha Circular, Ramos e Manguinhos. A zona 161 compreende Penha, Penha Circular e parte de Brás de Pina. A zona 162 inclui áreas de Parada de Lucas, Cidade Alta, Cordovil, Brás de Pina e Vigário Geral. Já a zona 188 abrange parte da Penha, Grotão e parte de Olaria. O recorte reúne, portanto, áreas dos complexos e bairros próximos, mas não permite identificar o local de residência de cada eleitor. Os números apresentados correspondem à votação registrada nas 4 zonas pesquisadas. Delegado Bernardo Leal chega à Cidade da Polícia sob aplausos Reprodução/TV Globo Bem votado em toda região Felipe Curi recebeu 307 votos na zona 21, 215 na zona 161, 580 na zona 162 e 661 na zona 188. A soma chega a 1.763 votos, o equivalente a aproximadamente 1,32% dos 133.626 votos que ele obteve em todo o estado. A votação registrada na área pesquisada representa uma parcela da votação estadual do ex-secretário, que deixou o comando da Polícia Civil e disputou uma vaga na Câmara dos Deputados. Seu nome ganhou força política após a ampla exposição da cúpula da segurança pública durante a Operação Contenção. A distribuição dos votos também mostra que a votação de Curi não se concentrou em uma única zona eleitoral. Ele recebeu votos em todas as 4 áreas incluídas no levantamento, que abrangem bairros como Penha, Penha Circular, Olaria, Bonsucesso, Ramos e partes de Brás de Pina e outros bairros da Zona Norte, todos sob influência das quadrilhas do crime organizado que controlam os complexos da Penha e do Alemão. Complexo do Alemão, Complexo da Penha e bairros do entorno. Reprodução Google Maps Na zona 21, que inclui partes de bairros do entorno, Curi recebeu 307 votos e foi o 3º mais votado. Nessa zona eleitoral, Curi ficou 26 votos atrás do 2º colocado, o deputado eleito Luis Carlos Gomes (Republicanos) e 241 votos atrás do primeiro, o deputado reeleito Sóstenes Cavalcante (PL). Na zona 161, que abrange Penha, Penha Circular e parte de Brás de Pina, foram 215 votos. Curi foi o 6° mais votado nesta zona eleitoral. Entre os eleitores da zona 162, que inclui áreas de Parada de Lucas, Cidade Alta, Cordovil, Brás de Pina e Vigário Geral, 580 escolheram votar em Curi. O ex-secretário foi o 2º com maior número de votos nessa zona, perdendo apenas para Sóstenes Cavalcante, que buscava a reeleição e conta com forte apoio entre grupos evangélicos. Na zona 188, que abrange parte da Penha, Grotão e parte de Olaria, foram 661 votos para Felipe Curi. Ele ficou na 3ª posição entre os eleitores dessa zona eleitoral, atrás de Mariana de Souza (PP), que não foi eleita, e Sóstenes Cavalcante. Policiais algemam suspeito durante megaoperação Mauro Pimentel/AFP A votação nessas áreas ocorreu em uma eleição na qual Curi, ex-chefe da Polícia Civil, levou para a disputa eleitoral sua trajetória na segurança pública. A megaoperação de outubro de 2025 foi um dos episódios de maior repercussão de sua gestão e colocou a atuação das polícias no centro do debate público. Ao explicar por que decidiu disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, Curi relacionou a experiência na Polícia Civil à defesa de mudanças na legislação penal. "O único caminho para mudar essa realidade é a política por meio de leis atualizadas e que realmente vão dar a resposta para a população", afirmou Curi. 2 mil eleitores da região ‘votaram’ na megaoperação Marcelo de Menezes Nogueira, o Coronel Menezes (PL), ex-secretário de Polícia Militar, foi eleito deputado estadual com 46,7 mil votos em todo o RJ. Nas 4 zonas eleitorais analisadas, ele recebeu 15 votos na zona 21, 38 na zona 161, 38 na zona 162 e 56 na zona 188. Somados, os resultados chegam a 147 votos. Depois de mais de 50 horas, o secretário da PM, coronel Marcelo de Menezes, fala sobre a morte de Herus Guimarães Mendes, que foi morto a tiros no Morro Santo Amaro Milton Oliveira/TV Globo Menezes integrou a cúpula da segurança pública durante a Operação Contenção, ao lado de Curi. A ação mobilizou policiais civis e militares e foi apresentada pelo governo estadual como parte da estratégia de combate à expansão territorial do Comando Vermelho. A operação teve repercussão nacional pelo número de mortos, pela mobilização de agentes e pelo impacto sobre a rotina dos moradores e de outros pontos do Grande Rio. A exposição dos responsáveis pela condução da ação colocou a segurança pública entre os temas associados à atuação política dos ex-secretários. A votação de Menezes nas quatro zonas registra a presença eleitoral do candidato nesse recorte territorial, formado por bairros da Zona Norte e áreas próximas dos complexos. Já o delegado Bernardo Leal (PP) foi eleito deputado estadual com 57.254 votos em todo o estado. Ele ficou gravemente ferido, perdeu a perna direita durante a operação policial na região e ganhou visibilidade pública após o episódio. Nas quatro zonas eleitorais pesquisadas, Leal recebeu 22 votos na zona 21, 25 na zona 161, 21 na zona 162 e 48 na zona 188. O total foi de 116 votos. Policiais durante o resgate do delegado Bernardo Leal Reprodução Leal também vinculou sua imagem pública à atuação policial na região do Alemão e da Penha. O delegado foi atingido por disparos de fuzil e precisou amputar uma perna após o ferimento. A recuperação e a volta à vida pública fizeram parte da trajetória que antecedeu sua eleição. Somados, Curi, Menezes e Leal receberam 2.026 votos nas quatro zonas eleitorais selecionadas. Os três foram eleitos para cargos legislativos em 2026, depois de terem ocupado funções ou ganhado visibilidade em ações relacionadas à segurança pública do Rio. Relembre a megaoperação que deixou 122 mortos A Megaoperação Contenção foi realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio. Cerca de 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar participaram da ação, que tinha como objetivo cumprir mandados de prisão e combater a atuação do Comando Vermelho. O balanço final divulgado pelo governo estadual apontou 122 mortos: cinco policiais e 117 pessoas apontadas como suspeitas de envolvimento com o tráfico. A operação também terminou com 113 presos e a apreensão de 91 fuzis, além de outras armas e drogas. Ao comentar a Operação Contenção, Curi rejeitou a hipótese de que a ação tivesse sido planejada com objetivos eleitorais e afirmou que a experiência reforçou sua intenção de mudar as leis. "Ninguém faz uma operação dessas pensando em eleição. Ali nós perdemos policiais, pais de família que deram a vida e o sangue pelo Rio de Janeiro. População viu de verdade quem enfrentou o crime em vez de fugir dele contra tudo e contra todos. Foi uma realidade de guerra, sem uma legislação que desse o mínimo de garantia jurídica para os policiais, que hoje, inclusive estão respondendo”. “Enfrentamos uma realidade de guerra com uma lei feita para combater o criminoso comum. Se isso gerou confiança da população, foi por causa do resultado do trabalho. Foi justamente ali que ficou claro pra mim. A polícia pode entrar, mas se não mudarmos a lei, o crime volta”, analisou o deputado eleito. Cúpula da Segurança Pública se reúne e detalha megaoperação A ação teve forte impacto na rotina da cidade. Escolas e unidades de saúde deixaram de funcionar em áreas afetadas, enquanto barricadas e bloqueios foram registrados em diferentes pontos do Grande Rio. Moradores também retiraram corpos de uma área de mata na Penha após os confrontos. A letalidade da operação provocou repercussão nacional e críticas de organizações de direitos humanos. O governo estadual, por sua vez, defendeu a ação como parte de sua estratégia de combate ao crime organizado. A operação se tornou um marco no debate público sobre segurança no Rio e sobre o uso de grandes mobilizações policiais em áreas densamente povoadas. Um ano depois, a eleição de integrantes da cúpula da segurança pública e de um delegado ferido durante uma ação policial registra a passagem de figuras ligadas a esse contexto para o Legislativo estadual e federal. Leia todas as reportagens: Um ano depois, 33 alvos estão foragidos e chefes vivem na região Relatório sobre câmeras de PMs indica tortura, ameaças de morte e agressões Quem são os chefões do CV alvos que seguem foragidos MPRJ já denunciou 28 PMs da ofensiva por diferentes crimes ‘Sou um milagre’: delegado baleado reconstrói emboscada Câmeras corporais não pegaram nenhuma morte Crianças relatam medo de tiros e dificuldade nos estudos Rua onde corpos foram enfileirados tenta reconstruir a rotina Policiais da megaoperação obtêm vitória nas urnas